O leite, no início apenas um subproduto da atividade agropastoril, passou a desempenhar papel de importância crescente na vida comunitária. Rebanhos de ovelhas e de cabras, provavelmente os primeiros animais a serem domesticados, surgiram no Oriente Médio, a partir de 8000 a.C., mas não como fenômeno isolado.
As fêmeas do camelo e do dromedário, no Saara, a rena, no Alasca, e a vaca, na Ásia Central, serviram como fontes de leite. Em decorrência de sua relevância alimentar, não tardou em ganhar importância religiosa.


                                       Primeiras associações do leite com religião

Na Mesopotâmia, por volta de 5000 a.C., existia uma deusa, Nin Harsa, que protegia os vaqueiros. Os egípcios reverenciavam a cabra, enquanto outros a sacrificavam para aplacar a ira dos deuses. No Egito Antigo, o queijo de cabra era uma parte importante da alimentação diária, não apenas pelo seu apreciado sabor mas devido à convicção de que ele podia prevenir tuberculose, diminuir a velocidade do processo de envelhecimento e até melhorar o desempenho sexual.
 
 Havia a deusa Thueris, representada por estatuetas de uma fêmea de hipopótamo com o mamilo direito perfurado, que se acredita poderia fazer o papel de uma mamadeira. No sarcófago do faraó Tutankamon, que reinou no Egito 3.000 anos atrás, foram encontrados 22 tubos para armazenar queijo, que seriam usados, acredita-se, para alimentá-lo durante a espera da ascensão aos céus e como presente para os deuses. Na mitologia romana, o leite também marca presença pela lenda da loba do Capitólio, que teria amamentado Rômulo e Remo, fundadores de Roma.
 

As passagens bíblicas

Entre os hebreus, o leite é utilizado ora como símbolo de vida e fertilidade, ora como de fartura. No Antigo Testamento, por exemplo, encontra-se a passagem na qual a Terra Prometida é descrita por Deus, ao profeta Moisés, como aquela onde corriam leite e mel. Nessa poderosa metáfora, apela-se ao desejo mais profundo de um povo que, entre sua saída do Egito e chegada a Canaã, vagou por 40 anos pelo deserto: água. É certo que não existem fontes de mel ou de leite. Mas uma terra farta em água suporta pastagens, sendo rica em gado e conseqüentemente em leite. Da mesma forma, tendo flores, é possível ter abelhas e mel. Fora da metáfora bíblica, o que jorra em Canaã não é o leite nem o mel, mas a água. A Terra Prometida é portanto a antípoda do deserto: uma terra fértil. Extraordinário, no entanto, que tenha sido o leite e não o vinho, o trigo ou os figos, o alimento escolhido para compor a metáfora bíblica. Nesse exemplo emblemático, fica clara a importância do leite na vida e na alimentação dos antigos hebreus. Entre as múltiplas proibições alimentares hebraicas existe uma, presente na Bíblia, que diz: “Não comerás cabrito no leite de sua mãe”. Evita-se dessa maneira um incesto culinário, ou seja, não se deve colocar uma mãe e seu filhote no mesmo caldeirão, do mesmo modo que uma mãe e seu filho não devem ocupar o mesmo leito. Ainda hoje, os judeus não comem carne cozida no leite. Era também costume entre os judeus, durante os ritos religiosos, o sacrifício de um caprino – provavelmente a origem da expressão “bode expiatório” – que simbolicamente carregava o fardo dos pecados de Israel, expiando as culpas e afastando a ira de Jeová. A escolha de uma cabra novamente pressupõe a importância desse animal na economia doméstica desse povo. Outra passagem bíblica, provérbios 27:27, revela a associação do leite à fartura, na frase: “E haverá bastante leite de cabra para o teu sustento, para o sustento da tua casa e das tuas criadas”.
 

Leite e a mitologia greco-romana

Na mitologia greco-romana, o leite é fator de união entre o divino e o humano, entre o mortal e o eterno e, além disso, o gerador de vida no céu e na Terra. Conta-se que Zeus, em um de seus envolvimentos com mortais, no caso Alcmene, gerou Hércules – herói famoso principalmente por sua força. Tendo se afeiçoado a seu filho, quis que ele fosse imortal. Para isso, levou-o sorrateiramente para ser amamentado por sua esposa, Hera, enquanto ela dormia. O pequeno Hércules sugou o seio com tamanho ímpeto que este continuou jorrando, mesmo depois do fim da amamentação. Do leite derramado no céu, surgiu a Via Láctea e, daquele vertido sobre a terra, surgiu a flor-de-lis.


Leite e a mitologia hindu

Nos Vedas, na Índia, existe a oração agnhihotra, que é cantada da seguinte forma: “Indra e Agni este leite alegre canto. Que ele dê a imortalidade ao homem piedoso que sacrifica”. Na mitologia hindu, existem muitas histórias ligadas ao leite. Entre elas conta-se que Manu, o pai de todos os homens, ganhou devido à sua inteligência o respeito do deus Vischnu e, por isso, foi salvo do dilúvio universal. Em retribuição, Manu ofereceu um bolo de leite coalhado, manteiga e creme de leite. Do bolo, nasceu Ida, mulher de extraordinária beleza que despertou a atenção de Manu. Esta, para evitar o assédio que se aproximava, transformou-se em uma vaca. Manu, percebendo a manobra, transmutou-se em touro e a possuiu. Em seguida, em uma versão hindu da arca de Noé, iniciou-se uma perseguição com diversas transmutações para outros animais – sempre fêmeas e machos – que repovoaram a Terra após o grande dilúvio.


Leite no início do cristianismo

Entre os cristãos, nos primeiros tempos do cristianismo, o leite era servido em rituais de batismo como símbolo de purificação, regenerada pelo sacramento. A imagem de Maria amamentando o Menino Jesus é uma constante em pinturas entre os séculos 10 e 16. Em diversas delas, Maria oferece o seio cercada de anjos, em um clima etéreo, próprio dos milagres. Fazia parte dos objetivos da Cruzada de 1204 a recuperação de um litro com leite santo de Maria, os cueiros, a camisa, o sudário e as sandálias de Cristo.
 


Leite no início do islamismo

No Alcorão, a exemplo da Bíblia, o leite goza de grande respeito. É citado como uma bebida do Paraíso, e para os mulçumanos sonhar com ele é sinal de conhecimento e sabedoria.